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segunda-feira, 20 de julho de 2009

TER amigo é fácil; O difícil é SER amigo


Muitas pessoas dizem que é difícil ter amigos nessa nossa vida tão atribulada. Não concordo. Pelo menos, para mim, sempre foi muito fácil. Talvez porque não tenha medo de arriscar e me decepcionar - como já aconteceu algumas vezes -; talvez porque o que colhemos após aquela bela peneirada, seja mais do que suficiente para nossa "auto-subsistência"; talvez porque eu seja um filho da puta de um sortudo do c... Não sei. Só sei tenho vários amigos verdadeiros.

O que a vida me ensinou é que o difícil mesmo é SER amigo. Alguém aqui acha que é fácil? Eu não. Amigo é uma espécie de versão assexuada da amante. Nunca é priopridade. Nunca tem preferência. Sempre a segunda opção. E diferentemente da amante (talvez para compensar a ausência de sexo... hehehe), não se importa muito com isso. Sabe por que? Pelo simples fato de de não se exigir exclusividade quando o assunto é amizade. Podemos ter cinquenta amigos diferentes, e quando um nos põe de lado, lá está outro para nos fazer companhia.

Há um estranho e velado código de ética presente nas amizades. Como se fosse um tipo de DNA. Está lá, e nada pode ser feito para ser mudado.

- Mulheres têm preferência;
- Namoradas têm preferência;
- Esposas, definitivamente, têm preferência;
- Família têm preferência;
- Outros amigos com melhores opções têm preferência;
- preguiça tem preferência;

Enfim, quase tudo é razão para deixarmos o amigo de lado. E isso acontece porque sabemos que ele não irá ligar; não fará teatro e, muito menos, transformará nossa vida em um verdeiro inferno em razão disso. Afinal, amanhã pode ser você quem tenha o imprevisto. SER amigo é mesmo difícil. Não ser a primeira opção e conviver bem com isso, exige racionalidade. Talvez por isso não vejamos tantas mulheres amigas (ahaha... tinha que dar o jab de leve). E é exatamente aí que inicia-se um verdadeiro sofisma vicioso:

As mulheres querem ser amigas;
As mulheres exigem preferência;
Amizades não têm preferência;
As mulheres buscam isso em outro lugar;
Nós somos o "outro lugar";
Homens não exigem preferência;

Conclusão: O amigo será sempre a segunda opção!

Mas é aí que a amizade se destaca. É justamente nessa hora, nesse momento em que tudo parece perdido, que enxergamos o poder desse milenar sentimento: Apesar dos amigos NUNCA serem preferência, SEMPRE temos tempo para eles. Amizade é uma contradição mágica; algo inexplicável que endoidece as mulheres; É o amor desnecessitado de provações. Puro, eterno enquanto dura, inexplicavelmente leve, mesmo que intenso.

Por isso digo: Amo meus amigos, mas minha esposa estará sempre em primeiro lugar! (Afinal, no meu caso, minha esposa também é minha grande amiga, o que é mais uma contradição, pois, nesse caso, ela não se importaria em ser segunda opção, mas...hehehehe)

Feliz dia dos amigos meus amigos! Vocês sabem quem são!

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Mulher do Ufólogo


Dalva e Laerte formavam um casal diferente. Ele sempre fora um solitário ufólogo de fama internacional, mas sem muitas relações inter-pessoais. Já Dalva era o oposto. Uma mulher briosa, simpática, fazedora constante de amizades, e de papo extremamente agradável. Porém, sempre fora uma moça cercada de mistérios.


Havia aparecido na pequena cidade de Jotalhão subitamente. Sem lenço, e sem documento. Uma mão na frente, e outra atrás. Aliás, quando disse anteriormente "sem documento", referi-me ao sentido literário da expressão. Dalva não tinha registro geral, nem muito menos cadastro de pessoa física. A única coisa que carregava ao chegar à cidade era um enorme corte na cabeça, além de uma evidente amnésia, possível resultado do ferimento. Talvez, em uma cidade grande, o incidente de Dalva e sua ausência de documentos (consequências de um provável roubo), fossem melhor esmiuçados, mas, em Jotalhão, as coisas eram muito mais brandas.


Pouco tempo havia se passado e a cidade já tinha abraçado a nova filha. E nem houve muito tempo para as peçonhentas "carolas" da cidade, injetarem seus venenos com comentários maldosos (pura inveja em virtude da beleza da recém-chegada), pois essa, estranhamente, e para surpresa de todos, apaixonou-se logo por Laerte, o Ufólogo.


Laerte era um homem respeitado no mundo da Ufologia, era referência mundial nos estudos sobre a possibilidade da existência de vida fora da terra, e era chamado para um sem número de palestras por todo país. Porém, na pirâmide social de Jotalhão, pairava um degrau abaixo de Moisés - o profético mendigo local.


Mas os dois se conheceram e se completaram. "O amor é a forma mais democrática da loucura", diziam alguns inconformados. Fato é que, em menos de 6 meses, Dalva e Laerte estavam matrimoniados. O casamento, inicialmente, foi soberbo. A mulher era regada à bons tratos, e desejada à "maus tratos". Todavia, o tempo foi passando e Dalva foi deixando, cada dia mais, de ser uma novidade para ele. Isso somado ao aparecimento sem precedentes de um cometa, fez com que a relação do casal esfriasse.


Vinte anos se foram, seguindo essa mesma toada de indiferença, falta de desejo e atenção por parte do Ufólogo, que, dispendia a maior parte do seu tempo concentrado em seus estudos e pesquisas. Às vezes, Dalva dizia ao marido que, ficar olhando a mandioca plantada, não a fazia crescer mais rápido, uma nada sútil metáfora referente ao fato dele passar, noites e mais noites, olhando para o espaço em seu telescópio de última geração, ao invés de prestar atenção na própria esposa.


Certa vez, quando preparava-se para ir ao seu pequeno observatório situado na zona rural de Jotalhão, foi surpreendido com a notícia da companhia de sua esposa. "Já que Maomé não ia à montanha..." concluiu Dalva. Naquela noite, a presença de Dalva foi ignorada, tanto quanto um pote de requeijão repousando na geladeira de alguém intolerante à lacticínios. Ela, então, acabou por perder a paciência, discutindo seriamente com Laerte, e pegando suas coisas ao deixar o observatório. E nunca mais voltou. Dalva sumiu sem deixar vestígio algum. Laerte demorou algumas horas até perceber o desaparecimento da mulher, mas quando notou o que havia acontecido, desesperou-se. Amava-a muito. Apenas não sabia como demonstrar aquele sentimento.


Enquanto isso em algum lugar do Universo...


- Finalmente você concluiu seus trabalhos! - disse um ser bizarro em uma língua indescritível.


- Demorou um pouco mais do que o esperado, houve contratempos...- justificou-se Dalva enquanto arrancava o próprio rosto para revelar toda semelhança física com seu inquisitor.


- Vinte anos humanos não é muito tempo, mas é mais do que suficiente para chegar à uma conclusão. Então, o que você concluiu em sua pesquisa? indagou a criatura.


- Não há perigo algum. Pelo menos por um belo tempo. respondeu Dalva (ou seja lá o que for).


- Você sabe como os humanos podem ser perigosos. Eles parecem gafanhotos em plantações, quando acham um brinquedinho novo. Vejam só o que fizeram com a Terra. Não os queremos tão cedo xeretando em nosso planeta. Você tem certeza de que eles estão longe de descobrir que há vida fora da Terra?


A pergunta deixou Dalva absorta, refletindo sobre todo tempo que passara com Laerte, e como, surpreendentemente, se apaixonara pelo homem a quem devia investigar sobre as descobertas extra-terrenas. Passara a amá-lo tanto que teria lhe contado tudo que quisesse saber sobre o Universo, em troca de um pouco mais de atenção e carinho. Teria traído seu povo por amor. Um amor, afinal, não correspondido. Choraria se seu organismo permitisse. "Dalva" não possuía pálpebras. Engoliu os pensamentos, e friamente respondeu aquilo que toda mulher acredita ser a maior verdade de todas:


- Eles estão longe de desvendar os segredos de uma mulher, quanto mais os mistérios do Universo.


E de volta à Terra, Laerte nem imaginava que, caso tivesse prestado mais atenção em sua esposa, talvez hoje soubesse mais sobre Ufologia do que os humanos saberão em séculos. Ironicamente, ele resolvera abandonar a profissão para se dedicar integralmente à procura da esposa. Justamente agora que ela se encontrava no espaço.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A Escolha de Viriato


Viriato tinha uma vida comum e ordinária. Casado desde os tempos de faculdade, era um homem que pouco havia aproveitado a vida. Mulheres, só tivera uma - Dalila - a mãe de seu filho. Filho, aliás, motivo central para realização do matrimônio. Sua vida em casa era um verdadeiro inferno. Dalila era uma mulher possessiva, ciumenta, de humor insuportável, além de péssima dona-de-casa. Era comum voltar da repartição pública onde trabalhava há mais de 15 anos, e ainda ter que cozinhar seu próprio jantar.


Mas Viriato era apaixonado por seu filho Sinval. O garoto de 13 anos de idade havia puxado o humor e paciência do pai, e em pouquíssimas coisas lembrava a mãe. Sinval e ele dividiam os mesmos gostos e torciam para o mesmo time de futebol, o que tornava as idas aos jogos perfeitas, vez que a mãe odiava futebol. Sim, era o filho e aqueles deliciosos domingos a dois que o faziam aturar o convívio com a víbora.


Certa feita, chegou em casa do trabalho e se deparou com um delicioso jantar à luz de velas. O prato principal era um cordeiro regado ao molho de frutas vermelhas, que só lhe dava menos água na boca do que ver sua esposa em uma camisola de seda quase que totalmente transparente. Fazia tanto tempo que não a reparava dessa maneira que já tinha se esquecido de como seu corpo era sublime.


Aquela noite havia sido inolvidável, assim como memorável seriam os próximos meses de seu relacionamento. Refeições nababescas com os mais variados pratos e temperos. Massagens subliminares que recebia daquelas mãos de anjo. O mau-humor havia desaparecido. Assim como o ciúme também era coisa do passado. A vida nunca havia sido tão prazerosa. Até houve um certo domingo em que Dalila acompanhou ambos ao estádio de futebol revelando-se uma torcedora apaixonada.


O tempo foi passando, e numa tarde de sexta-feira, Viriato resolve surpreender a mulher ao voltar mais cedo do trabalho com um regalo em mãos. Ao chegar em casa, deparou-se com Sinval sentado na escadaria com os olhos marejados de lágrimas. Correu até o filho, abraçando-o forte. Antes mesmo que pudesse perguntar o que havia ocorrido, ouviu inúmeros estrondos vindos de dentro da casa. Ao abrir a porta supreendeu-se com a enorme quantidade de vasos, pratos e copos esmigalhados em uma miríade de cacos que refestelavam-se pelo chão. Dalila, agora estava sentada no sofá soluçando tão intensamente que chegava a sentir falta de ar. Gritava que queria morrer. Viriato, cada vez mais aflito, ajoelhou-se em frente à mulher e passando a mão por entre seus embaraçados cabelos perguntou o motivo para tudo aquilo ali. Quase foi nocauteado pelas palavras da mulher, que confessava sem receio algum o caso que havia mantendo com Adolpho, um amigo que Viriato fizera no bar anos atrás. Seu coração se remoía a cada declaração de amor à Adolpho que saía da boca de sua mulher. Ela dizia que o amor por Adolpho a fizera mudar para melhor e que sem ele tudo voltaria a ser como antes.
Viriato transtornado pelo orgulho ferido, dirigiu-se à cômoda do quarto retirando uma revólver 38 da gaveta de baixo. Mil coisas se passavam em sua cabeça enquanto caminhava em direção ao bar da esquina. Adolpho costumava passar suas tardes lá, jogando sinuca com colegas desempregados. As palavras de sua mulher invadiam seus pensamentos vez ou outra, mas sua mente apenas alimentava a idéia de matar o amante de sua esposa.


Entrou no bar já apontando a arma para Adolpho, que levou alguns segundos para realizar o que estava acontecendo. Algumas pessoas correram para fora do bar, enquanto outras se jogaram no chão do estabelecimento, mas Adolpho permaneceu em pé, petrificado encarando o cano da arma como um homem encararia um seio de uma mulher. Sabia o motivo daquilo estar acontecendo. Achava Viriato um banana, e isso somado ao fato de que Dalila era um pedaço de mau caminho, fez com que ele decidisse seduzí-la. Mas Dalila havia se apaixonado por ele, cobrava visitas mais regulares e tinha acessos de ciúmes quando ouvia notícias dele com outras mulheres. Por isso tudo resolvera terminar o caso. E agora, por isso tudo, Viriato resolvera terminar com ele. Fechou os olhos e esperou pelo pior.


Viriato se aproximou de Adolpho colocando o cano do revólver em sua têmpora. Aproximou a boca do outro ouvido do rapaz. Os olhos de Adolpho se arregalaram enquanto recebia as palavras proferidas pelo marido de Dalila. Ele apontava a arma para sua cabeça exigindo que o rapaz retomasse o caso com sua esposa. Sussurava em seu ouvido que ele deveria estar à disposição de Dalila a qualquer momento que ela quisesse, sob pena dele voltar ali e acabar com a raça do ex-amante. Surpreso e com as calças molhadas, Adolpho concordou com aquela mórbida exigência imposta por Viriato, que simplesmente colocou o revólver na cintura, deu dois tapinhas na cara do rapaz proferindo a palavra: "Sócio".


Voltou para casa com um sorriso no rosto, e aflito para contar as novidades para Dalila. Graças a ele, a esposa recuperaria seu amante. A notícia fez com que ela ficasse radiante,e enchesse-o de beijos. Agradecida, quis cozinhar para ele um jantar especial, e ele pediu seu favorito: Strogonoff. Então, vendo a esposa extasiada saindo para fazer compras, Viriato acomodou-se no sofá saboreando uma cerveja gelada. A paz havia retornado. Entre a paz em casa e a fidelidade da esposa, havia escolhido a primeira. E não estava nem um pouco arrependido.