segunda-feira, 20 de julho de 2009

TER amigo é fácil; O difícil é SER amigo


Muitas pessoas dizem que é difícil ter amigos nessa nossa vida tão atribulada. Não concordo. Pelo menos, para mim, sempre foi muito fácil. Talvez porque não tenha medo de arriscar e me decepcionar - como já aconteceu algumas vezes -; talvez porque o que colhemos após aquela bela peneirada, seja mais do que suficiente para nossa "auto-subsistência"; talvez porque eu seja um filho da puta de um sortudo do c... Não sei. Só sei tenho vários amigos verdadeiros.

O que a vida me ensinou é que o difícil mesmo é SER amigo. Alguém aqui acha que é fácil? Eu não. Amigo é uma espécie de versão assexuada da amante. Nunca é priopridade. Nunca tem preferência. Sempre a segunda opção. E diferentemente da amante (talvez para compensar a ausência de sexo... hehehe), não se importa muito com isso. Sabe por que? Pelo simples fato de de não se exigir exclusividade quando o assunto é amizade. Podemos ter cinquenta amigos diferentes, e quando um nos põe de lado, lá está outro para nos fazer companhia.

Há um estranho e velado código de ética presente nas amizades. Como se fosse um tipo de DNA. Está lá, e nada pode ser feito para ser mudado.

- Mulheres têm preferência;
- Namoradas têm preferência;
- Esposas, definitivamente, têm preferência;
- Família têm preferência;
- Outros amigos com melhores opções têm preferência;
- preguiça tem preferência;

Enfim, quase tudo é razão para deixarmos o amigo de lado. E isso acontece porque sabemos que ele não irá ligar; não fará teatro e, muito menos, transformará nossa vida em um verdeiro inferno em razão disso. Afinal, amanhã pode ser você quem tenha o imprevisto. SER amigo é mesmo difícil. Não ser a primeira opção e conviver bem com isso, exige racionalidade. Talvez por isso não vejamos tantas mulheres amigas (ahaha... tinha que dar o jab de leve). E é exatamente aí que inicia-se um verdadeiro sofisma vicioso:

As mulheres querem ser amigas;
As mulheres exigem preferência;
Amizades não têm preferência;
As mulheres buscam isso em outro lugar;
Nós somos o "outro lugar";
Homens não exigem preferência;

Conclusão: O amigo será sempre a segunda opção!

Mas é aí que a amizade se destaca. É justamente nessa hora, nesse momento em que tudo parece perdido, que enxergamos o poder desse milenar sentimento: Apesar dos amigos NUNCA serem preferência, SEMPRE temos tempo para eles. Amizade é uma contradição mágica; algo inexplicável que endoidece as mulheres; É o amor desnecessitado de provações. Puro, eterno enquanto dura, inexplicavelmente leve, mesmo que intenso.

Por isso digo: Amo meus amigos, mas minha esposa estará sempre em primeiro lugar! (Afinal, no meu caso, minha esposa também é minha grande amiga, o que é mais uma contradição, pois, nesse caso, ela não se importaria em ser segunda opção, mas...hehehehe)

Feliz dia dos amigos meus amigos! Vocês sabem quem são!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Voa Canarinho, Voa!




(Título sugerido por Leandro Tondin)


Casamento é algo sagrado no Brasil. Copa do Mundo também. E, às vezes, a mistura desses dois pode ser explosiva.

Quinta-feira, 14 de julho. Casamento de Adele e Jônas.

- Ai, Adele, nem posso acreditar que você vai se casar em alguns minutos. Que emoção! Além do que, você vai perder sua virgindade hoje! Não é maravilhoso? Será que o Jonas está muito nervoso também?

- Ai, amiga, não faço idéia.

********

Quinta-feira, 14 de julho. Semifinal de Copa do Mundo. Brasil x Argentina.

- Caralho, Jônas, nem posso acreditar que vai se casar hoje. Que merda! Além do que, você vai perder o segundo tempo da porra do jogo! Não é uma foda? Será que a Adele não atrasa essa cerimônia?

- Quem? Vai Kaká! Acaba com esses argentinos de merda!!

*********

Meia-hora depois.

- Aceito!

- E você, Jonas dos Santos, aceita Adele Nogueira como sua legítima esposa?

- Ah! Não!

- Como assim "Não"?

Jonas percebe o murmurinho e a flição tomando conta da noiva e dos convidados.

- Desculpa, amor. É que foi pênalti para a Argentina.

- Jônas, não acredito que esteja ouvindo o jogo. É nosso casamento.

- Eu sei, amor. Mas é Brasil e Argentina. Copa do Mundo. Tá 1x0 pra gente.

- Me dá esse i-pod aqui!

**************

15 minutos depois:

Jonas e Adele, já casados, deixam a igreja de mãos dadas. Quando chegam à metade do caminho, um convidado grita impulsivamente:

- Pênalti pro Brasil!!! Caralho! 49 do segundo tempo!

Jônas larga a mão de Adele, mas a esposa o fulmina com os olhos e ele retorna cabisbaixo. Continuam a caminhada. Agora, lentamente. Jônas quer saber se foi gol. Quando estão quase na porta da igreja, o amigo grita:

- GOOOOOLLLL!!!! Tâmo na final!!!! De novo!!!! É Hexa! É Hexa!

Jônas larga a mão da esposa e vai pra galera. Abraça os amigos e sorri feliz da vida. ninguém acredita no que vê. Adele corre em direção ao carro, inteiro rasurado com "Recém-Casados". Tira o motorista do banco e sai a milhão. Levam alguns minutos para avisar Jônas, ainda extasiado com o resultado do jogo.

Encontraram Adele horas depois. Ainda vestida de noiva, apesar de grande parte do vestido já estar manchado de vermelho. Jogou-se de uma ponte qualquer. Jônas foi assolado pela culpa. Inanimado. Sem reação. Horas depois, no IML, o médico legista informou que, em função da Copa do Mundo, estava com a equipe reduzida. A autópsia demoraria um pouco para acontecer. O corpo estaria liberado para sepultamento no domingo. Então, Jônas desesperou-se. Era o dia da final.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Sétima Página


Se Cláudio Cavalcanti tivesse tido como pai metade da competência que tivera como empresário, seus filhos, certamente, teriam sido as crianças mais felizes do mundo. Cláudio passara a infância submetido à rigidez militar do pai. Fora ensinado a manter-se sempre sério; brincadeiras, segundo ele, não passavam de perda de tempo e faziam parte de um inadimissível processo de "aparvalhamento do caráter". Nunca ganhara um brinquedo; apenas disciplina. Essa rigidez foi repassada aos filhos, através de uma educação severa e distante. Quando separou-se da esposa, então, as coisas ficaram muito piores. O afastamento deixou de ser apenas emocional, tornando-se físico também. Finais de semana com o pai eram coisa cada vez mais rara para a alegria dos quatro filhos - três homens e uma mulher - que preferiam as aulas de matemática às visitas à casa do pai.

Por isso, não era de se estranhar que nenhum deles tivesse despejado um rio de lágrimas durante o velório do pai. Na verdade, uma só lágrima já seria surpreendente. Os filhos sempre tiveram tudo do bom e do melhor - afinal, Cláudio, apesar de disciplinador, era bastante generoso -, menos a certeza de que o pai os amava. Na visão dos filhos, tudo que os envolvia parecia uma obrigação desagradável para ele. E nenhum dinheiro no mundo convenceria-os do contrário. Talvez por isso, a relação entre pai e filhos havia se transformado numa imensa geleira polar, intransponível até para o maior Navio-cargueiro.

Dez dias após o velório, procedeu-se a leitura do testamento de Cláudio. Os quatro filhos foram convocados para presenciar o ato legal, e descobrir como seria feita a divisão dos inúmeros bens materiais deixados pelo pai. Mansões, coberturas, casas de praia e de campo, imóveis comerciais, carros, ações da empresa, enfim, uma verdadeira fortuna.

Chegaram juntos ao escritório do advogado particular do pai. Dr. Robson era um homem visivelmente obeso e de uma simpatia singular. Fez questão de recepcioná-los pessoalmente e conduzi-los à sala onde daria início aos procedimentos legais. Quando os herdeiros adentraram a vasta sala de reuniões, assustaram-se com o número de pessoas presentes. Diversos homens e mulheres aguardavam em silêncio o início da leitura, e poucos deram qualquer importância à chegada dos quatro herdeiros. O filho mais velho questionou a necessidade de tantas pessoas e ouviu do advogado que ele apenas convocara aqueles indicados pelo falecido empresário.

A leitura foi iniciada e a primeira página do testamento apenas relatava os aspectos legais do ato, indicando quando e onde fora registrado, quais eram as testemunhas, etc. Enfim, um porre para qualquer um, ainda mais para quem já demonstrava sinais de impaciência. Só a partir do meio da segunda página é que as vontades do falecido foram reveladas. Os filhos ficaram estupefatos quando souberam das decisões finais do pai. Descobriram que todos os ali presentes eram amigos íntimos ou colegas de profissão por quem Cláudio tinha muito estima. Viram a casa de campo virar pó ao ser entregue ao amigo e companheiro de golfe. Deram adeus à casa de praia que havia sido oferecida ao obeso advogado que lia o testamento. Ficaram perplexos ao verem apartamentos, mansões, carros e tudo mais evaporando em uma divisão irracional que apenas os deixavam perplexos e boquiabertos.

Foi por volta da quinta página que o filho mais velho levantou-se em repulsa, criticando e colocando sob suspeitas aquela leitura a que se referia apenas como "uma indubitável farsa". Recusou-se a ouvir uma só palavra a mais e saiu brandindo a mão ameaçadoramente, enquanto cuspia impropérios cabulosos. A irmã, única mulher entre os quatro, mostrou-se ainda mais indelicada que o irmão, tentando, inclusive, agredir o simpático advogado, a quem se endereçava como "gordo de merda" e "poço de banha". Quando, já na sexta página, Dr. Robson relatou que somente metade das ações iriam para os herdeiros, o caçula levantou-se calmamente da cadeira, aprumou-se com arrogância e frieza, e encarando os outros convidados disse para que não comemorassem muito, pois esse testamento não continha validade legal alguma. Prometeu anulá-lo e depois retirou-se tranquilamente da sala de reuniões.

Dos quatro, apenas Lucas manteve-se imóvel na cadeira. Não estava gostando daquilo, mas, sinceramente, estava pouco preocupado com quem ficaria com o que. Dr. Robson, num tom defensivo, perguntou ao rapaz se ele também não iria sair. Lucas, apoiou os cotovelos na mesa e respondeu:

- Não vim aqui pelo dinheiro, nem pelos bens materiais. Estou aqui somente em respeito à memória do meu pai. E se ele acha que essas pessoas são merecedoras do que estão recebendo, quem sou eu para criticá-lo. Só Deus sabe que EU, com certeza, não fiz por merecer. Sim, ele poderia ter sido um melhor pai, mas, com certeza, eu também poderia ter sido um melhor filho. Mais presente e compreensivo. Prossiga, Dr. Robson. Respeitarei as vontades dele.

Assim que terminou de falar, Dr. Robson abriu um largo sorriso e Lucas viu todas as pessoas da sala encarando-o com um ar leve e receptivo. O obeso advogado ergueu-se da cadeira com dificuldade, virando a página do testamento enquanto olhava para o herdeiro.

- Ele sempre soube que seria você. Fico feliz que meu amigo tenha acertado.

Lucas só entendeu a frase quando o advogado deu início à leitura da sétima e última página do testamento. Aquilo tudo havia sido um mero teatro, e todos aqueles na sala eram somente atores contratados. Pelas leis brasileiras, Cláudio era obrigado a deixar tudo para seus filhos - nunca mais se casara novamente - e aquelas baboseiras não tinham o menor validade. Quando seu irmão deixou a sala avisando que nada daquilo tinha valor legal, estava com toda a razão. Cada um dos quatro ficaria com 25% da herança, sendo que os imóveis e carros seriam vendidos e partilhados em quatro partes iguais. Mas Cláudio havia reservado, ainda, uma última surpresa.

Dr. Robson dirigiu-se ao armário que ficava atrás da cabeceira da mesa e abriu uma das gavetas. Lá dentro havia quatro fitas VHS, cada uma com o nome de um dos filhos escritos em uma fita crepe já desgastada. O advogado pegou somente a que tinha o nome de Lucas. Depois queimaria as outras, seguindo instruções do falecido amigo. Colocou a fita dentro do vídeo-cassete e pediu a todos que se retirassem. Apertou o PLAY e deixou Lucas sozinho na sala. Quando o pai apareceu na tela, o rapaz desabou em emoção. Cláudio começou relatando que acabara de descobrir sobre o câncer fulminante e o medo que tinha da morte. Mas disse que seu maior medo era deixar esse mundo sem que pudesse dizer ao filho o quanto o amava de verdade. Foram os cinco minutos mais emocionantes na vida de Lucas. Pela primeira vez, em toda sua vida, viu o pai chorando, totalmente entregue aos sentimentos. Uma imagem que ficaria eternizada em suas lembranças. Sim, o pai o amava. Do jeito dele, mas amava. Sentiu-se libertado. Livre de uma terrível culpa que aflige aqueles que não sabem onde ou quando erraram. Nenhum outro legado poderia ser mais maravilhoso. Pausou o sorriso do pai na tela e seguiu até o monitor. Acariciou o rosto do pai, como se ele estivesse ali à sua frente, em carne e osso. Ajoelhou-se dominado por um choro que misturava culpa e alívio.

Lucas deixou aquela sala como um milionário, mas o dinheiro do pai era a última coisa que passava pela sua cabeça.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Homem que Morria de Medo de Aniversários


Pietro tinha 11 anos quando assistiu, numa sexta-feira 13, uma reportagem mórbida sobre pessoas que morriam no dia de seus aniversários ou datas importantes do calendário anual, enfim, infelizes coincidências que, segundo a reportagem, aconteciam com mais frequência do que poderíamos imaginar (não que alguém fosse perder tempo pensando numa coisa dessas). Ainda assim, a matéria sugeria que essas datas eram os momentos em que mais deveríamos nos precaver para evitar acidentes ou imprevistos, ou seja, uma tremenda baboseira de quem não tinha nada melhor para colocar no ar, mas suficientemente marcante para impactar uma criança.

Isso, somado ao falecimento do tio no dia do aniversário do avô, na semana seguinte à matéria, causou danos irreversíveis no pequeno garoto, fazendo-o mudar radicalmente de hábitos e perdendo inúmeros eventos. Não comemorava mais seu aniversário. Nunca. Nem mesmo saía para fora de casa. Tudo para evitar o pior. Nas festinhas dos amigos, então, virou ausência certa. Alguns nem o convidavam mais. Com o tempo, foi perdendo a amizade de todos e se distanciando em um mundo cercado de medo e angústia.

Virou um adulto solitário, desconfiado, recluso. Amigos? Não os tinha desde a escola. Na faculdade fora mero figurante. Um daqueles caras misteriosos que chegam e vão embora desapercebidos. Namoradas? De jeito maneira! Elas eram as que mais gostavam de celebrar essas datas amaldiçoadas. Aniversário dela, dele, de namoro, noivado, dia dos namorados, uma algazarra de datas e comemorações que tornavam a vida uma perigosa corda bamba. Família? Bom, não tinha irmãos ou irmãs, o pai morrera quando ainda era pequeno e a mãe morava longe. Só tinha tempo de vê-la nas datas comemorativas. Justo nelas. Não ia. Escrevia um cartão (a mãe odiava a internet) ou dava um telefonema seco. Possuía umas duas dúzias de primos, mas se não ia visitar a mãe, eles muito menos. Só assim sua vida era segura e mantida sob-controle. Essa era a escolha que tinha feito.

Pietro morreu do coração, aos 26 anos, vítima de de um infarto causado pelo excesso de peso e sedentarismo. Não saía mais de casa. Só para trabalhar. Morreu num 28 de abril. Só acharam seu corpo quatro dias depois. De importante na data? Nada. Só a comemoração do Dia da Sogra, que, por sinal, ele nem tinha.




Mensagem: O medo é uma prisão de vidro que precisa ser quebrada todos os dias para que não nos sufoque.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Até Papai Noel Tira Férias de Vez em Quando


O auditório estava lotado de pessoas que haviam se inscrito para assistir ao talk-show. Todos aplaudiram de pé a entrada do famoso apresentador franzino e elegante. Ele fez algumas brincadeiras com a platéia e, depois, anunciou seu convidado da noite:

- Ele largou a vida de executivo bem sucedido para virar dono de pastelaria, ganhando, hoje, dez vezes menos o salário anterior. Nós vamos falar com o Sr. Odimar Lopes.

A platéia, apesar do espanto e das risadinhas paralelas, aplaudiu o homem como era de praxe naquele programa, mas a verdade era que os risos serviam com uma máscara que escondia as chacotas e pré-julgamentos de todos que lá estavam. Seria difícil entender o que teria levado um homem culto e educado a fazer uma escolha tão infeliz. Odimar caminhou até o apresentador apertando sua mão com firmeza e sentou-se no sofá, encarando, pela primeira vez, as dezenas de "juízes" afoitos para proferir a sentença que o condenaria. Voltou os olhos ao franzino apresentador quando ele começou a falar:

- Odimar, quando soube do seu caso, eu pensei em como poderíamos iniciar essa nossa entrevista de hoje, porém, é impossível fugir de uma pergunta simples e direta: Por que essa mudança tão radical?

Odimar abriu um leve sorriso. Já havia ouvido essa pergunta milhares de vezes. Tantas, que já tinha desenvolvido uma resposta intrigante que deixava todos perplexos.

- Simples. Porque até Papai Noel tira férias de vez em quando.

A platéia riu sem entender bem a razão. Talvez aquele senhor fosse louco. Um maluco saído do manicômio direto para ali. O apresentador fez uma cara de surpresa, deixando claras as dúvidas de que conversar com aquele homem teria sido a melhor escolha. Tinha a opção de conhecer a estória da mulher que ensinara um pequeno urso selvagem a escrever nossa língua, para estar ali com Odimar. Alguém na sua produção pagaria caro por isso. Odimar, vendo a cara de interrogação do homem à sua frente, antecipou-se na explicação.

- Parece loucura mas não é. Deixe-me explicar. Alguns anos atrás, meu filho, ainda com sete anos, veio passar o natal comigo. Havia me separado da minha ex-esposa quando ele tinha dois anos de idade, e queria participar mais da vida dele. trabalhava muito e pouco o via. Quando a gente se encontrava, normalmente o encontro era interrompido por algum problema profissional urgente. Perdia aniversários, páscoas, natais, feriados, tudo. Resolvi que precisava ficar mais com ele, e pedi a minha ex-esposa que me deixasse passar o natal com nosso filho naquele ano. Ela relutou, mas cedeu. Sabia qual seria o desejo de Saulo. Levou o garoto até a casa dos avós, meus pais, pois seria lá a ceia. Claro que tive uma série de imprevistos de última hora para resolver, e acabei chegando tarde para vê-lo. Alguns minutos depois, na hora dos presentes, lembrei que havia esquecido completamente de lhe comprar algo. Na minha família, nunca tivemos a tradição de trocar presentes no Natal. Quando ele veio me perguntar onde estava Papai Noel, respondi que ele havia tirado férias, por isso não tinha aparecido. Só alguns meses depois, ao ter que cancelar uma pequena viagem que faríamos juntos por causa do trabalho, percebi como o que eu havia lhe dito, tinha causado enorme impacto. E quando ele me disse: "Pôxa, papai, se até Papai Noel sai de férias de vez em quando, por que você não pode?". Não sei dizer a razão, mas aquela frase me remoeu por dentro e transformou a minha vida.

As pessoas da platéia já começavam a olhar com um pouco mais de respeito para o entrevistado. Não esperavam uma resposta como aquela. De forma alguma. O silêncio era revelador, e só foi quebrado por uma nova pergunta.

- E como surgiu a idéia da pastelaria?

- Simplesmente aconteceu. Tinha uma bela grana guardada e vi essa pastelaria sendo vendida do lado de casa. Queria tempo para poder ficar com meu filho e achei que a pastelaria seria algo que não exigiria muito. Conversei com minha ex-esposa sobre isso, e ela achou uma boa. Queria que o Saulo participasse desde o começo. A empolgação dele era cativante. Ele me pediu para trabalhar lá comigo. Antes que eu pudesse responder, ele já antecipou que trabalharia de graça. Achava que pagar um salário para ele seria um empecilho para mim. "Estar com você já é meu pagamento", ele me disse. Nem entendeu quando eu caí em lágrimas. Não fazia a menor idéia de como essa frase eliminou qualquer dúvida sobre a decisão de abandonar tudo. A presença dele era meu combustível. Viramos unha e carne. Era delicioso ver o prazer com que servia os clientes.

Algumas pessoas no auditório já começavam a chorar. Aquela era uma senhora estória de vida. Um verdadeiro exemplo de amor incondicional.

- E é verdade que você e sua esposa voltaram a ficar juntos?

- É sim. A minha aproximação com Saulo, acabou me reaproximando da minha ex-mulher. Com o tempo, começamos a nos entender e um belo dia, quando percebemos, havíamos tido uma recaída. Ela largou o trabalho também, e passou a trabalhar na pastelaria. Foi dela a idéia de começarmos a fazer aniversários infantis regados a pastel. Ela é a mulher da minha vida. - os olhos de Odimar ficaram marejados de emoção, mas ele seguiu forte. - Voltamos como um namorico entre adolescentes e hoje estamos morando juntos de novo.

- E vocês ainda têm a pastelaria? O que estão fazendo da vida?

- Então, nós já repassamos o ponto para uma rede de drogarias. Era bastante trabalho e pouco lucro. Meu filho, em uma das festas que fizemos, conheceu um garoto de quem ficou amigo. O garoto adorava jogar tênis e o Saulo entrou na dança. Isso faz, mais ou menos, uns seis anos. Hoje, o Saulo é considerado a maior promessa do esporte no Brasil, e eu o acompanho nos torneios que disputa por todo país e América Latina. Sou uma espécie de manager. Na verdade, trabalho para ele. Hoje, meu filho é meu patrão. Dá pra acreditar? - A pergunta irônica arrancou algumas simpáticas gargalhadas do público.

- Bom, Odimar, infelizmente nosso tempo acabou, mas eu queria agradecer imensamente sua presença e parabenizá-lo pela escolha.

- Eu que agradeço o convite. Só queria dizer uma última coisa aos pais de todo nosso país: Não podemos esquecer que nosso verdadeiro sonho, são nossos filhos. E o maior presente que podemos dar a eles, é estarmos presente.

Quando Odimar se levantou, a platéia o ovacionou em pé. Ninguém mais estava rindo dele, agora, apenas riam para ele. Achavam-no um iluminado. Um exemplo. Os olhos das mulheres brilhavam com tamanha intensidade que, fosse ele solteiro, sairia casado dali.

Deixou o auditório com a platéia ainda em pé, reverenciando o homem que fez aquilo que muitos de nós queremos, mas nunca teremos coragem de fazer.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lápis e Borracha


A mulher esperava impassível em cima do palco do anfiteatro, enquanto observava as pessoas se acomodando em assentos distantes umas das outras. Era interessante observar como o ser humano, em geral, comportava-se defensivamente ao adentrar um território desconhecido. Pelos seus cálculos, a palestra que daria sobre Educação na Infância e na Adolescência seria ouvida por um pouco menos da metade da capacidade total do espaço, o que era uma vitória para um domingo ensolarado como aquele. Esperou mais cinco minutos, até que pediu para um dos organizadores que trancasse a porta do anfiteatro. A partir dali, ninguém mais entrava ou saía. Arrumou o microfone postado à sua frente e começou a falar:

- Bom dia a todos! - ouviu algumas tímidas retribuições e prosseguiu - Em primeiro lugar, gostaria de agradecer imensamente a todos vocês que consideraram essa palestra interessante o suficiente para privá-los de uma manhã ensolarada como essa. - O público, na maioria mulheres que trabalhavam como educadoras ou professoras em escolas infantis, riu de leve com a veracidade do comentário feito pela palestrante.

Então, a mulher continuou:

- Meu nome é Cassiopéia Resende e sou formada em psicologia pela USP, com Pós-Graduação em Educação infantil pela PUC e MBA em Comportamento Juvenil pela Faculdade de Yenkton, em Boston, EUA. Já trabalho nessa área há alguns anos, e discutiremos muitos assuntos interessantes ao longo das próximas horas, mas gostaria de iniciar esse bate-papo falando com vocês sobre uma teoria que elaborei após ter contato com uma mãe desesperada, anos atrás. É a Teoria do Lápis e Borracha. - As pessoas fizeram cara de espanto ao ouvir o nome proferido pela Doutora, mas a concentração e o interesse estavam ainda bastante aguçados , o que fez com que ninguém se manifestasse.

- Bom, meus caros, essa mãe em questão tinha mania de sempre fazer vistas grossas para tudo que o filho fazia de errado. Desde criança. O filho fazia alguma besteira, e lá estava ela para consertar, e pior de tudo, agir como se nada tivesse acontecido. O filho fazia, ela consertava e depois esquecia. Ele escrevia, ela apagava. Ele era o lápis e ela, a borracha. Pois então, o que começou como peraltice de criança, passou a vandalismo na adolescência. As atitudes do garoto eram sempre apagadas pela mãe, dando a ele uma sensação de impunidade vista somente naqueles com algum tipo de deficiência mental. Tudo podia ser consertado. Tudo podia ser apagado, esquecido, banido para todo o sempre. Nunca sofreria com as consequências de seus atos. Más companhias, drogas, falta de senso social eram coisas presentes no dia-a-dia daquele adolescente perdido. Até o dia em que a vida cobrou dele o primeiro pedágio, e após uma noite de farra e muito álcool, o moleque inconsequente atropelou uma menina de 7 anos de idade. Ele ficou preso nas ferragens, tendo de encarar o corpo esmagado da garota imprensada contra o muro, até que fosse retirado do carro. O rapaz foi preso em flagrante, e hoje cumpre uma pena de 8 anos de prisão. E a lição principal que essa mãe teve, é que, às vezes, algumas coisas são escritas à caneta, e não podem ser apagadas. É sobre exatamente isso, muito do que eu vou falar com vocês durante o dia de hoje. - disse, finalizando sua bem-sucedida introdução.

As pessoas ficaram chocadas quando ouviram aquela estória. Quem nunca havia errado daquela maneira, talvez não tão intensamente como a mãe ali citada, mas na mesma forma que ela. Cassiopéia percebeu a platéia intrigada e sedenta por mais conhecimento ou novos causos. Queriam aprender a entender os jovens e confiavam que aquela mulher em cima do palco os ajudaria nessa jornada. O resto da palestra da psicóloga foi um estrondoso sucesso. Conhecimentos, exemplos, experiências, até confidências foram trocadas durante a palestra, que, após o coffe break, já via as pessoas sentadas umas ao lado das outras, bem próximo à palestrante.

As horas passaram como se fossem minutos, e ao final do evento, ninguém mais pensava sobre o sol que fazia no lado de fora. Quando terminou seu discurso final, Dra. Cassiopéia foi ovacionada em pé pelos quase 50 espectadores. Sentiu-se extremamente lisonjeada e feliz. Havia conseguido passar sua mensagem, e quem sabe, ajudado a plantar uma semente naquele jardim que chamamos de educação. Depois de mais alguns minutos de um bate-papo informal, a psicóloga deixou o anfiteatro, indo até a entrada da Universidade. Estava atrasada para um compromisso, e o sorriso deu lugar a um leve ar de preocupação. Não tinha ido de carro - não gostava muito de dirigir -, e não teve problema para encontrar um táxi. Quando ia entrar no automóvel, ouviu seu nome sendo chamado:

- Dra. Cassiopéia, a senhora tá indo pra onde? - era um dos poucos homens que estiveram em sua palestra. Ficou sem graça, pois nem se lembrava do nome do sujeito.

- Pro meu consultório. Tenho algumas coisas agendadas.

- Quer uma carona?

- Não precisa, meu caro. Tenho que fazer algumas coisas antes, mas lhe agradeço mesmo assim.

- Imagina. Não por isso! Até logo.

O homem se despediu entrando no Pálio preto. Cassiopéia sentou-se no banco de trás do táxi Meriva e pediu que o homem seguisse em frente.

- Para onde vamos, senhora?

- Cadeião de Pinheiros. - respondeu, sentindo logo depois os olhos do homem observá-la pelo espelhinho retrovisor.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Encruzilhada


A boca seca já começava a transparecer algumas feridas que ardiam quando tocadas pelo suor que escorria pelo rosto. A pele era invadida impiedosamente pelo sol, deixando marcas dolorosas e indesejadas. O homem aparentava pouco mais de vinte anos de idade, e já havia perdido a conta de quantas horas andava sob o sol escaldante.

Na verdade, o rapaz não se lembrava de nada, nem mesmo seu nome. Não sabia como havia terminado ali ou por qual razão acordara jogado em meio a um amontoado de pedras duras e extremamente desconfortáveis. As únicas coisas das quais tinha certeza era o fato de estar completamente perdido no meio de um deserto desconhecido, e da inexistência de um mísero local que o impedisse de ser cozinhado pelo sol.

Foram horas e horas perambulando sem direção na esperança de encontrar alguém ou algum lugar que pudesse lhe servir de abrigo, até que avistasse ao longe uma belíssima e imponente árvore. À primeira vista, tinha a impressão de estar de frente a um gigantesco bonsai com o tronco torto pendendo para a direita e a copa com o formato de um enorme guarda-chuva. Por isso estranhou quando viu debaixo dele um senhor que nada tinha de oriental, pelo contrário, tinha apele morena e uma longa barba branca crespa que contrastava com a total ausência de cabelos. Tivesse que adivinhar sua origem, provavelmente diria que o homem todo de branco era indiano.

Assim que se aproximou da árvore, viu o homem indo em sua direção. Pela feição dele, podia sentir que sua presença era bem-vinda. Aos pés do gigantesco bonsai a estrada se dividia em dois caminhos distintos. À esquerda, ela era totalmente plana, e um pouco mais à frente era possível ver algo que dali parecia ser um pequeno aglomerado de coqueiros. O outro caminho era uma estrada sinuosa que levava direto à parede de um colossal canyon que, provavelmente, demoraria horas para ser escalado. Enquanto o rapaz observava a altura da garganta rochosa, o velho começou a falar:

- Bom dia, meu jovem. O que faz você em um lugar como esses? – o homem havia juntado as palmas da mão com os dedos apontando para céu.

- Não faço a menor idéia, velho. Na verdade não me recordo de nada, nem do meu nome; a única coisa que sei é que eu não sei de nada. – O rapaz soltou um leve sorriso quando percebeu o tom filosófico contido em sua resposta.

O senhor de branco aproximou-se ainda mais, tocando as duas mãos na cabeça do rapaz sem nome. Seus olhos tremelicaram por alguns segundos, só parando no momento em que voltou a falar:

- Sua alma está em conflito, filho. Posso sentir. É por isso que está aqui.

- Não entendo, velho. Que tipo de conflito?

- Isso, meu jovem, só você é capaz de responder.

- E como eu deveria fazer isso, se nem ao menos meu nome eu lembro? – Um tom impaciente foi despejado na direção do ancião sem constrangimento algum.

- Nomes aqui são insignificantes, meu rapaz. Não são eles que nos definem, mas sim nossa alma. Se você está aqui, agora, é porque sua alma enfrenta um dilema na sua própria essência, e esse será o momento que irá definir quem você vai ser pelo resto de sua vida; independentemente dequal seja seu nome.

- Um papo um tanto quanto insano, não acha velho? – perguntou o jovem girando o dedo indicador na altura da têmpora, fazendo sinal que demonstrava o quanto achava aquela conversa uma maluquice completa.

- A própria sanidade contém fragmentos de loucura, meu garoto. Tudo depende da nossa boa vontade e de nossos preconceitos. – o senhor voltou a juntas as palmas das mãos como se fizesse uma reverência a alguma entidade espiritual.

- Êta conversa de doido, meu Deus do Céu!Mas, tudo bem, velho, vou jogar seu joguinho. O que tenho que fazer, então?

O velho olhou para o jovem e meneou positivamente a cabeça. Girou lentamente o corpo e partiu em direção à árvore. Os passos eram firmes, apesar de lentos. Andava com cuidado, porém não demonstrava a comum fragilidade presente nos idosos. Era imponente, altaneiro. Quando chegou à imensa sombra em forma de guarda-chuva criada pela copa da árvore, virou-se de frente para o rapaz e disse:

- A única coisa que você tem a fazer é escolher seu caminho. – afirmou o homem da barba grisalha, enquanto abria os braços apontando na direção dos dois caminhos disponíveis. – Nem mais, nem menos.

O rapaz sem nome achou tudo aquilo muito estranho. Não havia muito o que discutir sobre esse assunto. Um caminho era plano, o outro sinuoso e montanhoso. Em um caminho podia-se ver a recompensa próxima, com os inúmeros coqueiros torneando o que parecia ser um lago, que poderia se encarregar de matar sua sede e limpar alguns de seus ferimentos; o outro, só mostrava uma íngreme parede rochosa e nada mais. Realmente, não havia muito o que pensar. Se tudo que tinha a fazer era escolher seu caminho, a tarefa já estava feita. Iria pelo caminho mais fácil. Iria pela esquerda.

- Você está certo da sua decisão? – disse o velho quando o homem à sua frente seguiu para o caminho escolhido.

- Mais certo impossível. – respondeu o garoto com seriedade.

O ancião passou as mãos no rosto, e pendeu o pescoço para ambos os lados, como se quisesse se livrar de um incômodo torcicolo. Sentou-se no banquinho circular postado ao lado do tronco do gigantesco bonsai e fez uma nova pergunta:

- Se não for pedir demais, posso saber a razão dessa sua decisão?

- Ora, velho, isso é mais do que óbvio. Estou cansado, com sede e machucado. Preciso de água e descanso para recompor minhas forças e tentar arranjar uma forma de sair daqui. Você me diz que minha alma está em conflito, e quanto a isso eu não posso me manifestar, pois ainda não decidi se te acho um sábio ou um louco. A única coisa que decidi é que não quero enfrentar aquela escalada.

O rapaz apontou para cima e os olhos do ancião acompanharam seu dedo indicador. Realmente aquela era uma subida e tanto. O desânimo era inevitável, mas, apesar da decisão tomada, o garoto continuava a se explicar:

- Se seguir por aqui – disse o jovem apontando para o caminho plano – vou ter muito menos esforço que seguir pelo outro lado. Além do mais, posso ver que um pouco mais à frente há uma grande quantidade de coqueiros que me ajudariam, por exemplo, a matar minha sede. Estou esgotado, com minhas forças minadas. Tenho que tomar o caminho mais fácil.

O ancião aproximou-se do rapaz, colocando uma de suas mãos sobre seu ombro. O ar de resignação presente em seu rosto fez com que o jovem aceitasse aquela aproximação com naturalidade. Trouxe seu lábio junto ao ouvido do outro e cochichou algumas poucas palavras.

- Quem disse que aquilo que vemos é, de fato, real? Ou que o caminho aparentemente mais fácil, um pouco mais à frente, não nos revele novos e mais terríveis obstáculos?

O garoto franziu a sobrancelha demonstrando surpresa com as perguntas feitas. Será que aquele velho sabia de alguma coisa? Talvez fosse melhor mudar de idéia e seguir em direção à garganta rochosa. Mas, e se o velho fosse um louco? Afinal, aquela subida, além de cansativa, era sobretudo perigosa, ainda mais para alguém tão esgotado fisicamente quanto ele. A decisão parecia girar em torno da figura daquele senhor barbado. Louco ou Sábio? Direita ou esquerda? Suas dúvidas foram deixadas de lado, assim que o ancião voltou a falar:

- Não se esqueça, caro rapaz, que desertos são traiçoeiros, ardilosos. Mexem com nossa cabeça, criando fantasias e imagens, e transformando verdades. Dá vida ao inexistente, e expurga a realidade. Quem garante que aqueles coqueiros sejam realmente o que aparentam ser? Quem lhe garante que eu não seja apenas uma ilusão tentando lhe confundir? Quem lhe garante que qualquer coisa aqui seja verdadeira? E quem garante que não? As escolhas que enfrentamos durante nossa breve passagem em vida são sempre extremamente complexas e trabalhosas, e, aqui, isso não haveria de ser diferente. Não há certo ou errado, apenas esquerda ou direita. E suas respectivas conseqüências.

Essas últimas palavras martelaram a cabeça do rapaz por algum tempo. Quais seriam as conseqüências caso fizesse a escolha errada? Mas o velho acabara de dizer que não havia certo ou errado. Então, qual seria o problema de seguir pelo caminho mais fácil? O rapaz ajoelhou-se no chão como se pedisse ajuda divina. Repensou tudo que lhe fora dito por aquele homem de aspecto indiano e longa barba branca, amarelada pela nicotina. De todas as falas que reprisava em sua cabeça, uma em especial, agora chamava sua atenção. “Os desertos são traiçoeiros, ardilosos”, era a única coisa com a qual se familiarizava. Qualquer um já havia ouvido falar em como as pessoas eram afetadas pelo deserto quando ficavam à sua mercê durante muito tempo. Quem nunca ouvira falar dos “oásis”? Um louco não refletiria daquela maneira. O velho, então, só poderia ser um sábio. Antes que pudesse notar, o garoto já havia ultrapassado a linha da direita, e seguido rumo ao suntuoso canyon.

Olhou para trás depois de alguns metros e viu o velho sorrindo em sua direção. Foi a certeza de que tinha feito a escolha certa. Viu, então, o ancião apontar na direção dos coqueiros, que agora estranhamente pareciam se movimentar. Poucos segundos depois, observou que as árvores pareciam de plástico, tamanha era a facilidade com que eram levadas por uma estridente manada de elefantes. Tivesse ele escolhido aquele caminho, o obstáculo a ser transposto seria muito mais perigoso. Como era sábio aquele velho! Sua sabedoria havia salvado sua vida. Era como se aquele senhor parado bem na sua frente, fosse uma espécie de anjo da guarda... Peraí! Um anjo da guarda faria perfeito sentido. Uma nova dúvida dominou a cabeça do rapaz... e ele precisava descobrir a resposta.

- Velho, posso parecer um tanto bizarro ao lhe perguntar uma coisa dessas, mas você é algum tipo excêntrico de anjo? – disse sem medo de ter soado ridículo.

O senhor de branco abriu um leve sorriso indecifrável. Levou a mão até a nuca, coçando-a brevemente, como se pensasse na melhor maneira de responder àquela pergunta. Finalmente, olhou na direção do rapaz e respondeu:

- Não, meu caro. Não sou isso não. Já lhe disse que aqui nomes e definições não tem valor. Mas, se precisar batizar-me de algo, chama-me de consciência.

Assim que proferiu a última palavra, o ancião pareceu entrar em um estado de transe total. O pescoço foi assolado por fortes espasmos que davam a impressão de tê-lo quebrado por completo. O corpo começou a tremer tão intensamente quanto a terra atingida por um poderoso terremoto. Suas formas foram mudando, o rosto ficando desfigurado e a pele espremendo-se e esticando-se como se fosse feita de borracha. Do corpo brotaram longas asas cinza-avermelhadas; no rosto, um longo bico negro surgiu majestoso e soberano. Em volta de todo corpo, acendeu-se uma chama escaldante capaz de derreter o mais sólido dos metais. Era o fogo que fazia ressurgir a vida. Era a chama do renascimento. Então, o pássaro brilhante como a lava vulcânica, voou na direção do rapaz que o observava, passando rasante pelo corpo ainda petrificado pela surpresa.

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Toreiro voltou a si quando quase teve seu rosto atingido por uma pomba que havia passado muito perto do seu abundante nariz. Sentia-se pesado como alguém que tivesse acabado de acordar de um coma profundo. A mão direita segurava uma pistola Glock 9 milímetros, que supostamente seria de uso exclusivo da Polícia Federal no Brasil. Ao seu lado estavam vários comparsas e colegas de tráfico no morro. Dendê, Neneco, Jazadi, Kalunga e alguns outros companheiros de ilegalidade. À sua frente, enfrentando o gélido encarar do cano da sua arma, estava um policial militar capturado durante uma batida no morro. A incursão tinha como objetivo prender a liderança do tráfico local, e Toreiro era reconhecidamente um líder do crime. Agora, o caçador havia virado caça, e o jovem policial via sua vida nas mãos de um cruel assassino.

Só que enquanto observava o policial chorando dominado pelo desespero, Toreiro sentiu que algo de diferente dentro dele. Era como se percebesse o que havia de errado com aquela cena, e algo o impedisse de atirar friamente naquele homem. Nunca havia sentido nada igual. Sempre fora impulsivo e impiedoso, mas agora era invadido por uma culpa sem tamanho e sem procedência. Não entendia o que estava acontecendo. Talvez tivesse atingido seu limite de mortes; talvez matar aquele policial fosse a gota d água para ele, como se entrasse em um caminho sem volta. Com a culpa, veio uma paz indescritível, e uma certeza de que tinha que dar outro rumo na vida. Sim, aquele policial viveria pra contar essa estória. Abaixou a arma e colocou-a na cintura.

- Deixa esse porco ir embora! – ordenou com firmeza.

Os olhos dos companheiros arregalaram-se em espanto. Não acreditavam no que tinham ouvido. Deixar aquele policial ir embora seria suicídio para todos eles. O cara tinha visto o rosto de todos, e havia passado por locais que serviam como esconderijos para os traficantes. Se descesse vivo, certamente passaria a letra para todos os outros lá embaixo, e aí o chumbo ia voltar quente e grosso para o lado deles. Kalunga, o segundo no comando, questionou o líder:

- Você tá noiado? Pirou de vez? Assim que esse gambé chegar no asfalto, ele vai passa a fita de tudo aqui no morro!

- Eu sei disso, pôrra! Mas já tomei minha decisão. O porco vai viver.

- Caralho, Toreiro, que que cê ta fazendo, mano?

Toreiro olhou para o amigo de tráfico, abriu um leve sorriso e respondeu algo que apenas ele poderia entender:

- Tô subindo a montanha, mano. Tô subindo a filha da puta da montanha!

Assim que terminou de falar, virou-se e seguiu uma lenta caminhada para longe dali. O silêncio dominou o ar por alguns segundos. Podia-se ouvir os cérebros tentando digerir aquelas misteriosas palavras. Ninguém havia entendido nada. De repente, o silêncio foi quebrado pelo estralar de um tiro. Toreiro nem precisou olhar para trás para saber que o policial estava morto. Fechou os olhos, sabendo que seria o próximo. Logo, logo, estaria morto, mas nunca havia se sentido tão livre quanto naquele momento.