segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Encruzilhada


A boca seca já começava a transparecer algumas feridas que ardiam quando tocadas pelo suor que escorria pelo rosto. A pele era invadida impiedosamente pelo sol, deixando marcas dolorosas e indesejadas. O homem aparentava pouco mais de vinte anos de idade, e já havia perdido a conta de quantas horas andava sob o sol escaldante.

Na verdade, o rapaz não se lembrava de nada, nem mesmo seu nome. Não sabia como havia terminado ali ou por qual razão acordara jogado em meio a um amontoado de pedras duras e extremamente desconfortáveis. As únicas coisas das quais tinha certeza era o fato de estar completamente perdido no meio de um deserto desconhecido, e da inexistência de um mísero local que o impedisse de ser cozinhado pelo sol.

Foram horas e horas perambulando sem direção na esperança de encontrar alguém ou algum lugar que pudesse lhe servir de abrigo, até que avistasse ao longe uma belíssima e imponente árvore. À primeira vista, tinha a impressão de estar de frente a um gigantesco bonsai com o tronco torto pendendo para a direita e a copa com o formato de um enorme guarda-chuva. Por isso estranhou quando viu debaixo dele um senhor que nada tinha de oriental, pelo contrário, tinha apele morena e uma longa barba branca crespa que contrastava com a total ausência de cabelos. Tivesse que adivinhar sua origem, provavelmente diria que o homem todo de branco era indiano.

Assim que se aproximou da árvore, viu o homem indo em sua direção. Pela feição dele, podia sentir que sua presença era bem-vinda. Aos pés do gigantesco bonsai a estrada se dividia em dois caminhos distintos. À esquerda, ela era totalmente plana, e um pouco mais à frente era possível ver algo que dali parecia ser um pequeno aglomerado de coqueiros. O outro caminho era uma estrada sinuosa que levava direto à parede de um colossal canyon que, provavelmente, demoraria horas para ser escalado. Enquanto o rapaz observava a altura da garganta rochosa, o velho começou a falar:

- Bom dia, meu jovem. O que faz você em um lugar como esses? – o homem havia juntado as palmas da mão com os dedos apontando para céu.

- Não faço a menor idéia, velho. Na verdade não me recordo de nada, nem do meu nome; a única coisa que sei é que eu não sei de nada. – O rapaz soltou um leve sorriso quando percebeu o tom filosófico contido em sua resposta.

O senhor de branco aproximou-se ainda mais, tocando as duas mãos na cabeça do rapaz sem nome. Seus olhos tremelicaram por alguns segundos, só parando no momento em que voltou a falar:

- Sua alma está em conflito, filho. Posso sentir. É por isso que está aqui.

- Não entendo, velho. Que tipo de conflito?

- Isso, meu jovem, só você é capaz de responder.

- E como eu deveria fazer isso, se nem ao menos meu nome eu lembro? – Um tom impaciente foi despejado na direção do ancião sem constrangimento algum.

- Nomes aqui são insignificantes, meu rapaz. Não são eles que nos definem, mas sim nossa alma. Se você está aqui, agora, é porque sua alma enfrenta um dilema na sua própria essência, e esse será o momento que irá definir quem você vai ser pelo resto de sua vida; independentemente dequal seja seu nome.

- Um papo um tanto quanto insano, não acha velho? – perguntou o jovem girando o dedo indicador na altura da têmpora, fazendo sinal que demonstrava o quanto achava aquela conversa uma maluquice completa.

- A própria sanidade contém fragmentos de loucura, meu garoto. Tudo depende da nossa boa vontade e de nossos preconceitos. – o senhor voltou a juntas as palmas das mãos como se fizesse uma reverência a alguma entidade espiritual.

- Êta conversa de doido, meu Deus do Céu!Mas, tudo bem, velho, vou jogar seu joguinho. O que tenho que fazer, então?

O velho olhou para o jovem e meneou positivamente a cabeça. Girou lentamente o corpo e partiu em direção à árvore. Os passos eram firmes, apesar de lentos. Andava com cuidado, porém não demonstrava a comum fragilidade presente nos idosos. Era imponente, altaneiro. Quando chegou à imensa sombra em forma de guarda-chuva criada pela copa da árvore, virou-se de frente para o rapaz e disse:

- A única coisa que você tem a fazer é escolher seu caminho. – afirmou o homem da barba grisalha, enquanto abria os braços apontando na direção dos dois caminhos disponíveis. – Nem mais, nem menos.

O rapaz sem nome achou tudo aquilo muito estranho. Não havia muito o que discutir sobre esse assunto. Um caminho era plano, o outro sinuoso e montanhoso. Em um caminho podia-se ver a recompensa próxima, com os inúmeros coqueiros torneando o que parecia ser um lago, que poderia se encarregar de matar sua sede e limpar alguns de seus ferimentos; o outro, só mostrava uma íngreme parede rochosa e nada mais. Realmente, não havia muito o que pensar. Se tudo que tinha a fazer era escolher seu caminho, a tarefa já estava feita. Iria pelo caminho mais fácil. Iria pela esquerda.

- Você está certo da sua decisão? – disse o velho quando o homem à sua frente seguiu para o caminho escolhido.

- Mais certo impossível. – respondeu o garoto com seriedade.

O ancião passou as mãos no rosto, e pendeu o pescoço para ambos os lados, como se quisesse se livrar de um incômodo torcicolo. Sentou-se no banquinho circular postado ao lado do tronco do gigantesco bonsai e fez uma nova pergunta:

- Se não for pedir demais, posso saber a razão dessa sua decisão?

- Ora, velho, isso é mais do que óbvio. Estou cansado, com sede e machucado. Preciso de água e descanso para recompor minhas forças e tentar arranjar uma forma de sair daqui. Você me diz que minha alma está em conflito, e quanto a isso eu não posso me manifestar, pois ainda não decidi se te acho um sábio ou um louco. A única coisa que decidi é que não quero enfrentar aquela escalada.

O rapaz apontou para cima e os olhos do ancião acompanharam seu dedo indicador. Realmente aquela era uma subida e tanto. O desânimo era inevitável, mas, apesar da decisão tomada, o garoto continuava a se explicar:

- Se seguir por aqui – disse o jovem apontando para o caminho plano – vou ter muito menos esforço que seguir pelo outro lado. Além do mais, posso ver que um pouco mais à frente há uma grande quantidade de coqueiros que me ajudariam, por exemplo, a matar minha sede. Estou esgotado, com minhas forças minadas. Tenho que tomar o caminho mais fácil.

O ancião aproximou-se do rapaz, colocando uma de suas mãos sobre seu ombro. O ar de resignação presente em seu rosto fez com que o jovem aceitasse aquela aproximação com naturalidade. Trouxe seu lábio junto ao ouvido do outro e cochichou algumas poucas palavras.

- Quem disse que aquilo que vemos é, de fato, real? Ou que o caminho aparentemente mais fácil, um pouco mais à frente, não nos revele novos e mais terríveis obstáculos?

O garoto franziu a sobrancelha demonstrando surpresa com as perguntas feitas. Será que aquele velho sabia de alguma coisa? Talvez fosse melhor mudar de idéia e seguir em direção à garganta rochosa. Mas, e se o velho fosse um louco? Afinal, aquela subida, além de cansativa, era sobretudo perigosa, ainda mais para alguém tão esgotado fisicamente quanto ele. A decisão parecia girar em torno da figura daquele senhor barbado. Louco ou Sábio? Direita ou esquerda? Suas dúvidas foram deixadas de lado, assim que o ancião voltou a falar:

- Não se esqueça, caro rapaz, que desertos são traiçoeiros, ardilosos. Mexem com nossa cabeça, criando fantasias e imagens, e transformando verdades. Dá vida ao inexistente, e expurga a realidade. Quem garante que aqueles coqueiros sejam realmente o que aparentam ser? Quem lhe garante que eu não seja apenas uma ilusão tentando lhe confundir? Quem lhe garante que qualquer coisa aqui seja verdadeira? E quem garante que não? As escolhas que enfrentamos durante nossa breve passagem em vida são sempre extremamente complexas e trabalhosas, e, aqui, isso não haveria de ser diferente. Não há certo ou errado, apenas esquerda ou direita. E suas respectivas conseqüências.

Essas últimas palavras martelaram a cabeça do rapaz por algum tempo. Quais seriam as conseqüências caso fizesse a escolha errada? Mas o velho acabara de dizer que não havia certo ou errado. Então, qual seria o problema de seguir pelo caminho mais fácil? O rapaz ajoelhou-se no chão como se pedisse ajuda divina. Repensou tudo que lhe fora dito por aquele homem de aspecto indiano e longa barba branca, amarelada pela nicotina. De todas as falas que reprisava em sua cabeça, uma em especial, agora chamava sua atenção. “Os desertos são traiçoeiros, ardilosos”, era a única coisa com a qual se familiarizava. Qualquer um já havia ouvido falar em como as pessoas eram afetadas pelo deserto quando ficavam à sua mercê durante muito tempo. Quem nunca ouvira falar dos “oásis”? Um louco não refletiria daquela maneira. O velho, então, só poderia ser um sábio. Antes que pudesse notar, o garoto já havia ultrapassado a linha da direita, e seguido rumo ao suntuoso canyon.

Olhou para trás depois de alguns metros e viu o velho sorrindo em sua direção. Foi a certeza de que tinha feito a escolha certa. Viu, então, o ancião apontar na direção dos coqueiros, que agora estranhamente pareciam se movimentar. Poucos segundos depois, observou que as árvores pareciam de plástico, tamanha era a facilidade com que eram levadas por uma estridente manada de elefantes. Tivesse ele escolhido aquele caminho, o obstáculo a ser transposto seria muito mais perigoso. Como era sábio aquele velho! Sua sabedoria havia salvado sua vida. Era como se aquele senhor parado bem na sua frente, fosse uma espécie de anjo da guarda... Peraí! Um anjo da guarda faria perfeito sentido. Uma nova dúvida dominou a cabeça do rapaz... e ele precisava descobrir a resposta.

- Velho, posso parecer um tanto bizarro ao lhe perguntar uma coisa dessas, mas você é algum tipo excêntrico de anjo? – disse sem medo de ter soado ridículo.

O senhor de branco abriu um leve sorriso indecifrável. Levou a mão até a nuca, coçando-a brevemente, como se pensasse na melhor maneira de responder àquela pergunta. Finalmente, olhou na direção do rapaz e respondeu:

- Não, meu caro. Não sou isso não. Já lhe disse que aqui nomes e definições não tem valor. Mas, se precisar batizar-me de algo, chama-me de consciência.

Assim que proferiu a última palavra, o ancião pareceu entrar em um estado de transe total. O pescoço foi assolado por fortes espasmos que davam a impressão de tê-lo quebrado por completo. O corpo começou a tremer tão intensamente quanto a terra atingida por um poderoso terremoto. Suas formas foram mudando, o rosto ficando desfigurado e a pele espremendo-se e esticando-se como se fosse feita de borracha. Do corpo brotaram longas asas cinza-avermelhadas; no rosto, um longo bico negro surgiu majestoso e soberano. Em volta de todo corpo, acendeu-se uma chama escaldante capaz de derreter o mais sólido dos metais. Era o fogo que fazia ressurgir a vida. Era a chama do renascimento. Então, o pássaro brilhante como a lava vulcânica, voou na direção do rapaz que o observava, passando rasante pelo corpo ainda petrificado pela surpresa.

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Toreiro voltou a si quando quase teve seu rosto atingido por uma pomba que havia passado muito perto do seu abundante nariz. Sentia-se pesado como alguém que tivesse acabado de acordar de um coma profundo. A mão direita segurava uma pistola Glock 9 milímetros, que supostamente seria de uso exclusivo da Polícia Federal no Brasil. Ao seu lado estavam vários comparsas e colegas de tráfico no morro. Dendê, Neneco, Jazadi, Kalunga e alguns outros companheiros de ilegalidade. À sua frente, enfrentando o gélido encarar do cano da sua arma, estava um policial militar capturado durante uma batida no morro. A incursão tinha como objetivo prender a liderança do tráfico local, e Toreiro era reconhecidamente um líder do crime. Agora, o caçador havia virado caça, e o jovem policial via sua vida nas mãos de um cruel assassino.

Só que enquanto observava o policial chorando dominado pelo desespero, Toreiro sentiu que algo de diferente dentro dele. Era como se percebesse o que havia de errado com aquela cena, e algo o impedisse de atirar friamente naquele homem. Nunca havia sentido nada igual. Sempre fora impulsivo e impiedoso, mas agora era invadido por uma culpa sem tamanho e sem procedência. Não entendia o que estava acontecendo. Talvez tivesse atingido seu limite de mortes; talvez matar aquele policial fosse a gota d água para ele, como se entrasse em um caminho sem volta. Com a culpa, veio uma paz indescritível, e uma certeza de que tinha que dar outro rumo na vida. Sim, aquele policial viveria pra contar essa estória. Abaixou a arma e colocou-a na cintura.

- Deixa esse porco ir embora! – ordenou com firmeza.

Os olhos dos companheiros arregalaram-se em espanto. Não acreditavam no que tinham ouvido. Deixar aquele policial ir embora seria suicídio para todos eles. O cara tinha visto o rosto de todos, e havia passado por locais que serviam como esconderijos para os traficantes. Se descesse vivo, certamente passaria a letra para todos os outros lá embaixo, e aí o chumbo ia voltar quente e grosso para o lado deles. Kalunga, o segundo no comando, questionou o líder:

- Você tá noiado? Pirou de vez? Assim que esse gambé chegar no asfalto, ele vai passa a fita de tudo aqui no morro!

- Eu sei disso, pôrra! Mas já tomei minha decisão. O porco vai viver.

- Caralho, Toreiro, que que cê ta fazendo, mano?

Toreiro olhou para o amigo de tráfico, abriu um leve sorriso e respondeu algo que apenas ele poderia entender:

- Tô subindo a montanha, mano. Tô subindo a filha da puta da montanha!

Assim que terminou de falar, virou-se e seguiu uma lenta caminhada para longe dali. O silêncio dominou o ar por alguns segundos. Podia-se ouvir os cérebros tentando digerir aquelas misteriosas palavras. Ninguém havia entendido nada. De repente, o silêncio foi quebrado pelo estralar de um tiro. Toreiro nem precisou olhar para trás para saber que o policial estava morto. Fechou os olhos, sabendo que seria o próximo. Logo, logo, estaria morto, mas nunca havia se sentido tão livre quanto naquele momento.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Ricardo. Realmente seus textos são bem fortes. Mas escreve muito bem. Gostei da sua linha.De como vc "amarra" as histórias.
Bom, deixe me apresentar. Sou a Adriana, mãe da Isabella que vc fez um post no blog dela.
Agradeço ao incentivo e suas palavras e obrigada também pelo link que vc colocou aqui no seu blog.
Caso saiba de alguém que possa dar uma instrução à ela para que melhore cada vez mais a escrita, eu apreciaria.
Boa sorte e siga em frente com seus sonhos.
ABraços
Adriana

ligiabrisola disse...

Muito bemcoordenado o texto..tomara possamos sempre escolher o camunho certo...valeu muito..bj