sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Homem que Morria de Medo de Aniversários


Pietro tinha 11 anos quando assistiu, numa sexta-feira 13, uma reportagem mórbida sobre pessoas que morriam no dia de seus aniversários ou datas importantes do calendário anual, enfim, infelizes coincidências que, segundo a reportagem, aconteciam com mais frequência do que poderíamos imaginar (não que alguém fosse perder tempo pensando numa coisa dessas). Ainda assim, a matéria sugeria que essas datas eram os momentos em que mais deveríamos nos precaver para evitar acidentes ou imprevistos, ou seja, uma tremenda baboseira de quem não tinha nada melhor para colocar no ar, mas suficientemente marcante para impactar uma criança.

Isso, somado ao falecimento do tio no dia do aniversário do avô, na semana seguinte à matéria, causou danos irreversíveis no pequeno garoto, fazendo-o mudar radicalmente de hábitos e perdendo inúmeros eventos. Não comemorava mais seu aniversário. Nunca. Nem mesmo saía para fora de casa. Tudo para evitar o pior. Nas festinhas dos amigos, então, virou ausência certa. Alguns nem o convidavam mais. Com o tempo, foi perdendo a amizade de todos e se distanciando em um mundo cercado de medo e angústia.

Virou um adulto solitário, desconfiado, recluso. Amigos? Não os tinha desde a escola. Na faculdade fora mero figurante. Um daqueles caras misteriosos que chegam e vão embora desapercebidos. Namoradas? De jeito maneira! Elas eram as que mais gostavam de celebrar essas datas amaldiçoadas. Aniversário dela, dele, de namoro, noivado, dia dos namorados, uma algazarra de datas e comemorações que tornavam a vida uma perigosa corda bamba. Família? Bom, não tinha irmãos ou irmãs, o pai morrera quando ainda era pequeno e a mãe morava longe. Só tinha tempo de vê-la nas datas comemorativas. Justo nelas. Não ia. Escrevia um cartão (a mãe odiava a internet) ou dava um telefonema seco. Possuía umas duas dúzias de primos, mas se não ia visitar a mãe, eles muito menos. Só assim sua vida era segura e mantida sob-controle. Essa era a escolha que tinha feito.

Pietro morreu do coração, aos 26 anos, vítima de de um infarto causado pelo excesso de peso e sedentarismo. Não saía mais de casa. Só para trabalhar. Morreu num 28 de abril. Só acharam seu corpo quatro dias depois. De importante na data? Nada. Só a comemoração do Dia da Sogra, que, por sinal, ele nem tinha.




Mensagem: O medo é uma prisão de vidro que precisa ser quebrada todos os dias para que não nos sufoque.

4 comentários:

A Senhora disse...

Conheci um menino que tinha pânico de balões de aniversário. Não exatamente dos balòes, mas dos meninos estourarem e o barulho que faziam. Era um sufoco convidá-lo para festinhas dos meus filhos.

Na verdade, acho que é uma prisão que tem que ser lichada até se desfazer, porque quebrada pode machucar... :))

bjs

Altavolt disse...

Caro Ragas, viver é basicamente ter a coragem de continuar em frente apesar de todos os absurdos e fantasmas modernos que nos cercam. E olha que não têm sido poucos. Abraço!

Carol disse...

Muitas vezes, nem sabemos o porquê de nossos medos... não temos consciência que uma simples brincadeira, uma reportagem ou singelas coincidências podem nos marcar tanto!
Diariamente, temos que entender o que sentimos... quebrar ou lixar o vidro sim... mas sempre tentando descobrir o que realmente nos assusta e faz ter medo... só assim a barreira ou prisão será totalmente rompida e definitivamente vencida!
Genial este texto! Passa uma mensagem importantíssima e muito útil!

Cartografia n'alma disse...

Fantástico texto. O tragicômico da trama é seco e direto. Bom demais! Essa ironia que vc descreve nos prega peças a todo instante na "vida real".
Desculpe demorar tanto a te visitar. é que eu tava muito atolada. trabalhando feito uma louca. Praticamente como o Pietro. Sem vida social ou virtual. rsrs Mas entrei de férias essa semana. Agora sim! Vou ler seus contos. Que diga-se de passagem são muito interessantes.

Mil beijos!!!