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segunda-feira, 16 de março de 2009

Gemini


Era feriado na pequena cidade de Lopes. Aniversário da cidade. Isso fazia com que o contingente na delegacia ficasse limitado à Jéssica, uma policial novata, recém saída da academia. Esse era o preço pago pelos calouros - ainda mais quando esses vinham de outras cidades -, sacrificavam-se para que os mais experientes pudessem celebrar a ocasião com seus familiares. De qualquer modo, esse isolamento servia para que a policial mais fuçasse na internet do que resolvesse questões de ordem pública; cidade pequena já costuma ser pacata em dias normais, quando há festa então, chega a ser um verdadeiro marasmo.

Aproveitou a inércia total e decidiu ir ao banheiro. Já estava apertada há um certo tempo, mas o bate-papo pelo MSN estava agradável. Irritou-se quando ouviu o telefone tocar assim que abriu a porta do lavabo. O xixi teria que esperar um pouco mais.

- Delegacia da Cidade de Lopes, Boa noite. - falou educadamente.

Do outro lado surgiu uma voz inquieta, aflita, sussurrando em um tom que denunciava a proximidade com algum perigo.

- Eu preciso de ajuda... por favor... ele vai me matar... - relatou a voz em meio a respirações aceleradas.

Jéssica sentiu o coração palpitar inadvertidamente veloz, como se a adrenalina já começasse a ser produzida e espalhada pelo seu corpo. Inspirou fundo.

- Senhor, onde você se encontra?

- Não faço idéia... só sei que ele vai me matar... em breve.

- Quem irá matá-lo, senhor?

- Meu irmão. Ele está possuído.

Jéssica era novata tanto na profissão quanto na cidade, mas sabia que o universo de suspeitos havia despencado assombrosamente. Quantos irmãos gêmeos poderiam haver em uma cidade como Lopes? Um par, talvez dois. Quis pegar o outro telefone e ligar para o delegado Estevez, mas tinha pouco tempo para arrancar o máximo de informações possível daquela vítima. Tinha que fazer as perguntas certas.

- Senhor, qual o seu nome?

- Ah, meu Deus! Ele está voltando... ele está voltando! - sussurrou o homem desesperadamente.

- Senhor, você está amarrado?

- Não. Mas estou trancado num quarto. Está tudo meio escuro. Não consigo enxergar nada direito.

- Ótimo, senhor. Isso servirá a nosso favor. Vou lhe pedir um favor, e o senhor deverá fazer o que eu disser rapidamente, ok? Vou começar a rastrear sua ligação agora,certo? Mas preciso que você mantenha essa ligação por pelo menos mais 60 segundos. Tem algum lugar onde o senhor possa esconder seu aparelho?

A voz do homem em perigo ficou muda por alguns segundos. Jéssica concentrou-se tentando ouvir algum barulho que pudesse indicar ao menos a região de onde o sujeito estivesse falando. Já imaginava não ser um sub-solo, pois o sinal na região era ruim, e a ligação estava sem interferência alguma. Sua concentração foi quebrada pela voz do outro lado da linha.

- Pronto. Acho que encontrei um bom lugar. - comemorou o homem.

- Perfeito. Agora preciso que o senhor volte a ficar na posição em que estava quando seu agressor saiu, ok? Dessa forma, ele não levantará suspeitas sobre essa ligação. Tudo bem?

- Sim. - respondeu o homem com uma voz chorosa.

- Senhor, não se preocupe, eu o encontrarei.

- Tácio - disse a vítima -, me chame de Tácio.

Jéssica correu em direção ao servidor e conseguiu verificar que o homem se encontrava em Solene, um condado próximo da cidade de Lopes. Voltou ao telefone para fazer mais uma ou duas perguntas ao sujeito, mas lembrou-se de que ele já havia escondido o celular em algum lugar perto da onde estava; e se ele conseguisse ouvi-la, provavelmente também poderia o sequestrador. O jeito, agora, era esperar mais alguns segundos, até que o servidor lhe passasse a localização exata. Conseguia ouvir alguns poucos barulhos do outro lado da linha, mas pôde ouvir nitidamente a chegada do agressor. Assustou-se quando Tácio gritou apavorado após o ranger de uma porta. Não conseguia ver, mas podia sentir aquela presença diabólica através do rapaz aterrorizado. O agressor estava lá. Provavelmente fitando sua vítima, feito uma ave de rapina, sem que ela pudesse fazer nada para impedir tudo aquilo. Só então, conseguiu ouvir uma segunda voz através do telefone. Um timbre mais grave e sádico proferiu uma frase que gelou a espinha da policial: "Hora de pagar por seus pecados, irmãozinho querido".


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Rua Nempes, 68. Esse era o endereço, que apesar de fácil memorização, era olhado pela décima vez por Jéssica. Já dirigia a viatura a pouco mais de cinco minutos, enquanto tentava prestar atenção a qualquer movimentação sonora do outro lado da linha. Havia transferido a ligação para seu celular, e em alguns pontos o sinal era bloqueado por algumas interferências, mas precisava ficar atenta a qualquer pista que pudesse ser passada por qualquer um dos irmãos. Já não ouvia nada há alguns minutos, quando uma voz se manifestou com sadismo.

- Chegou sua hora, maninho querido. Mas antes, você vai sofrer um pouco. Precisa se purificar. E a verdadeira purificação só vem com a dor. Está vendo esse alicate? Hã? Pois então, ele está velho, surrado, enferrujado, mas servirá para arrancar... shshshshshshshshshshshs... a uma, assim como você fez com todas aquelas pessoas que me amavam. Uma a uma.

- Pelo amor de Deus! Não faça isso! Eu sou seu irmão... não faço idéia do que você está falando. Que pessoas são essas? Nunca fiz mal a ninguém. Não. Não. Por favor... Não. AHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!

O grito liberado por Tácio quase fez com que Jéssica batesse a viatura, e isso só não aconteceu por não haver carro do outro lado da estrada de mão dupla. O coração da policial ficava apertado a cada berro, a cada grito de dor, enquanto podia notar alguns pequenos gemidos de satisfação na voz do torturador. Foram mais ou menos dez gritos no total. Dez longos pedidos de socorro aos quais não podia atender. Estava à caminho, mas temia chegar tarde demais. Do outro lado da linha, a conversa continuava.

- Por que você está fa... fazendo isso comi...go?

- Cale essa boca! Sempre uma menininha chorona. Esse castigo é merecido, e você sabe disso. - Jéssica ouviu um barulho estalado e agudo, como se alguém tivesse levado um tapa na cara, inspirou profundamente e continuou atenta - Isso é por todos os anos em que você me manteve preso, seu desgraçado!

- Preso? mas eu não sei do que -.

- Cale-se! Já disse! Ainda mais se for para falar imbecilidades como essa. Você sabe sim do que estou falando. Agora, tire a calça!

- Como vou fazer isso se você me amarrou quando voltou.

Jessica sentiu pelo tom de voz de Tácio, que essa havia sido uma informação direta para ela, do tipo: "Venha logo ou estou perdido". Acelerou o carro e voltou a se concentrar na ligação. O diálogo entre os irmãos continuava.

- Hehehe. Verdade. Deixa que eu mesmo tiro.

O apito do GPS de Jéssica voltou a quebrar sua concentração. O aparelho indicava que teria que virar à direita dali a pouco mais de dois quilometros. Depois, mais alguns poucos metros e estaria na Rua Nempes. Começou a acreditar que haveria tempo hábil para salvar Tácio. Passou a imaginar o que faria se colocasse suas mãos naquele torturador maldito, e as imagens não eram nada agradáveis. Já estava envolvida emocionalmente com a situação. Testemunhar uma tortura pelo telefone era uma possibilidade que nunca passara por sua cabeça - e, provavelmente, de ninguém! - ainda mais em uma cidade tão pequena quanto aquela.

Só aí, lembrou que esquecera de avisar o delegado sobre o que estava acontecendo, mas agora já era tarde para esperar por reforços, e teria que lidar com tudo aquilo sozinha. Voltou a focar sua atenção ao diálogo dos irmãos.

- O que tem dentro dessa panela?

- Nada. Apenas água fervida. Só isso.

- O que pretende fazer com isso, Tobias?

Jéssica arregalou imediatamente os olhos. Então, esse era o nome daquele maldito. Típico de gêmeos mesmo. Tácio e Tobias. "Calma, Tácio, estou chegando" pensou a policial. Uma nova voz apareceu do nada, assustando-a. Era o GPS informando para que virasse direita. Agora, faltavam poucos metros.

- Tobias, pelo amor de Deus, eu te imploro! Eu te implo-o-o-ro-o! Não faça isso! Não! Não! NÃO!

- Fecha essa matraca seu covarde! Onde estava sua compaixão ao me trancafiar por tanto tempo? Onde está sua valentia agora? Quantas vezes não implorei, assim como você faz neste momento, para você me dar alguns minutos apenas de liberdade? E você o que fazia? NADA! Absolutamente nada! Apenas dizia que era para o nosso bem. Justo isso, não? Eu podado de minha liberdade, para que você tivesse uma qualidade de vida melhor. Agora, você vai pagar o preço!

Jéssica praticamente pulou do carro em movimento quando avistou o casebre abandonado com um número 68 quase caindo ao lado da porta. Disparou em direção à casa que tinha a pintura toda descascada e parecia não ser utilizada há décadas. A estrada de terra formara um redemoinho de pó entre o carro e a casa, o que fez com que Jessica não visse uma enorme pedra no seu caminho. A topada foi forte e a derrubou de cara no chão áspero. Seu celular voou longe e despedaçou-se ao se encontrar com outra pedra de médio porte. Não podia mais ouvir o que se passava dentro de um dos quartos daquela casa, e isso fez com que se desesperasse ainda mais. Sentiu a unha do pé direito latejando intensamente, mas agora não tinha tempo para prestar atenção à qualquer tipo de dor. Tinha que salvar Tácio.

Chegou à porta da frente e recostou-se na parede antiga de madeira. Tinha pressa, mas também se recordava do treinamento. Empunhou sua pistola e girou a maçaneta com cuidado. A porta estava aberta. Descuido ou armadilha? Não sabia dizer e tinha que se prevenir. Atravessou a porta, apontando a arma primeiro para direita, depois para esquerda. Não havia ninguém. A casa era enorme, e sabia que tinha pouco tempo para escolher o cômodo certo. normalmente começaria pelo porão - afinal casas antigas como aquela costumavam ter porões bem propícios para esse tipo de situação -, mas o sinal do celular funcionara bem na maior parte do tempo, por isso deciciu que subiria a grande escadaria de madeira empoeirada à sua frente.

Assim que atingiu o último degrau da escada, ouviu um berro que congelou a alma. Temeu que aquilo significasse o fim, mas tinha que buscar forças. Dessa vez, o grito se repetiu por alguns segundos. Podia notar a dor no timbre de voz. Percebia a pessoa buscando ar, apenas para que conseguisse extravasar o sofrimento que sentia. A voz vinha de cima, no segundo andar. enquanto corria, passou a gritar "Tácio, estou aqui! Eu cheguei! Fique calmo", contrariando todo o treinamento a que fora submetida durante meses.

Quando abriu a porta do sótão, viu a figura incandescente de um homem caído no chão. Podia ver a pele sendo comida pelo calor, enquanto a carne desfigurava o rapaz desacordado. Seu corpo tremia intensamente, e Jessica imaginava o quão insuportável era aquele sofrimento. A janela do sótão estava aberta, mas quando correu até lá não podia ver uma só alma viva. Voltou até Tácio e tentou reconfortá-lo com algumas palavras sem confiança. Sabia como seria aquele final. Chamou uma ambulância pelo rádio preso ao seu cinturão e passou algumas características ainda visíveis de Tácio, como altura, cor de cabelo, porte físico, para reforços policiais. Ficaria ali com ele, e só depois partiria atrás do irmão gêmeo assassino. O silêncio tomou conta do quarto, e só foi quebrado quando uma voz aflita parecia subir as escadas. Jessica empunhou seu revólver e o manteve apontado para a porta. Será que o assassino tinha retornado? Quase atirou quando um senhor atravessou a porta com os nervos à flor da pele.

- Tácio? Não! Não! Meu querido! O que você fez? - lamentou o homem dirigindo-se até o corpo desfigurado no chão.

- Mãos para o alto! - bradou a policial. - Encosta na parede! Já!

O homem recobrou a serenidade ao ver a arma apontada para si. Não sabia direito o que estava acontecendo, mas identificou a mulher como policial. Obedeceu a ordem. Foi revistado minuciosamente, e então ouviu a mulher perguntá-lo.

- Quem é você?

- Meu nome é Robert Thomaz. Sou o médico deste rapaz.

- Médico? Que tipo de médico?

- Psquiatria é minha especialidade. Ah, Tácio! Por quê? Por quê? - respondeu o médico, lamentando em seguida.

- Então o senhor conhece o Tobias? Sabe onde posso encontrá-lo?

- Tobias? - perguntou Robert com cara de espanto.

- Sim. O irmão gêmeo dele. - disse Jessica apontando para o corpo de Tácio.

- Não, minha cara. Tácio não tem irmão gêmeo nenhum. - completou o médico com resiliência.

- Como assim não tem? Ele me ligou clamando por socorro. Eu pude ouvir ele ser brutalmente torturado pelo irmão. Eu pude ouvir ele tendo suas unhas arrancadas. Veja! - disse a policial mostrando os dedos de Tácio ao médico - Viu só? Eu não sou louca!

- Você não, mas Tácio era, minha cara. - a voz do médico agora revelava um certo conformismo pós-choque - Veja bem, o Tácio há anos era meu paciente. Ele tinha um sério distúrbio de personalidade. Ele sempre fora um rapaz muito solitário. Abandonado pelos pais quando nasceu. Criado em orfanatos. Sem família, amigos. Por isso, sua mente criou-lhe um irmão gêmeo como companhia. Tobias, Terêncio, Tony, o nome era indiferente, desde que começasse com a letra "T".

Jéssica estava boqueaberta. Pasma com o relato frio e coerente de um médico que lidara com situações iguais aquela por muito, muito tempo. A veracidade passada pelo garoto havia sido incrível, e a frieza coma qual virara sobre si uma panela com água fervida era inimaginável. Continuou encarando o médico, enquanto ouvia mais detalhes sórdidos sobre a doença do suicida ao seus pés.

- Acontece que esses alter-egos, camuflados na pele de irmãos gêmeos, com o tempo, passaram a tornar-se perigosos, violentos. Tácio passou a assumir a identidade do "irmão" a cada momento em que um stress se manifestava, fazendo com que ele lidasse com determinado problema de maneiras inaceitáveis. Assim que percebemos isso, demos a ele uma dosagem maior de um coquetel de remédios, a fim de inibir essas aparições. Tudo correu bem por um tempo, mas, ultimamente, Tácio dizia receber ameaças do irmão, avisando que ele pagaria por privá-lo de sua liberdade.

- Olha doutor, eu prestei atenção no que o senhor relatou, e, é claro que tomaremos seu depoimento na delegacia, além de precisarmos ver todos os documentos, receitas e tratamentos a que o senhor se refere, mas devo ser sincera, ainda não entendi o que o levou a fazer isso.

O médico ajoelhou-se passando a mão nos fios de cabelo que restavam na cabeça de Tácio. Sentia o calor ainda envolvendo seu corpo, e talvez aquela fora a forma que Tácio encontrara para se punir pelos crimes cometidos por seu alter-ego; afinal de contas, a morte de um significava o fim do outro. Talvez por isso ele ligara para aquela policial pedindo por socorro, e talvez por isso também tenha ligado para o médico informando que estaria naquele local, naquele horário. Quem sabe não queria que toda a verdade viesse à tona, mostrando que no fim havia encontrado um jeito para acabar com as maldades do "irmão". Mesmo que para isso tivesse que sacrificar sua vida. Mas a verdade era muito mais cruel que aquela versão romântica de arrependimento. Então, Robert continuou:

- Minha cara, o que aconteceu aqui é simples. Yin ou Yang. Bem ou Mal. Céu ou Inferno. Quando há ausência de equilíbrio entre essas forças, o confronto é inevitável. A batalha de Tácio foi travada aqui, dentro dessas quatro paredes, e foi Tobias quem a venceu. Nem mais, nem menos.

Ao ouvir o som da sirene da ambulância, Jessica sentou-se no chão do quarto, e, ao lado do corpo daquele louco, desabou em um choro incontrolável que revelava marcas na alma que jamais se apagariam. O médico sentou-se ao lado abraçando-a, já certo de que, dali em diante, teria uma nova paciente.






quinta-feira, 12 de março de 2009

Tarde Demais


Hélio passava mais um daqueles finais de tarde agradáveis. Um happy hour com seus companheiros procuradores regado à cerveja, futebol e discussões sobre os casos em que atuavam em defesa do estado. A conversa tomou um rumo mais sério quando Hélio expôs aos colegas algumas ameaças anônimas que vinha sofrendo nas últimas semanas. Elas eram assustadoramente reais, especialmente quando a voz aterrorizante relatava, com detalhes, a intimidade da família. Tinha conhecimento das aulas de balé da filha, das aulas de teatro da esposa, da escolinha de futebol frequentada pelo filho. Sabia, inclusive, horários e itinerários das pessoas da sua casa. Sentia-se intimidado por tudo isso, mas não podia demonstrar, afinal de contas, todos sabiam, mais de 90% das ameaças eram apenas palavras jogadas ao vento.


Continuaram a conversa por mais alguns minutos até o momento em que seu celular tocou. Levantou-se para fugir do burburinho que o impedia de entender com clareza o que lhe era falado do outro lado da linha. Os amigos perceberam a súbita mudança de semblante que veio acompanhada pela palidez do rosto sempre bronzeado pelo sol. Com certeza eram más notícias. Tiveram a comprovação disso quando viram Hélio bater em disparada em direção ao carro, providencialmente, estacionado à frente do bar. Enquanto corria puderam ouví-lo cuspir algumas palavras em meio ao desespero - "Meu Deus...minha mulher..." foi o que conseguiram captar.


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O nariz escorria uma gosma líquida e branca que mudava sua tonalidade ao juntar-se ao sangue que caía da boca. Aquele era o terceiro tapa que a mulher levava na cara daquele estranho e assustador homem à sua frente, e seu rosto já revelava marcas profundas o suficiente para levar semanas até desaparecerem por completo. A violência era tamanha que a fazia acreditar em qualquer ameaça que fosse expurgada por aquela fétida boca. A dor já incomodava, e somada ao hálito proveniente daqueles dentes negros e podres, transformava essa experiência em algo que beirava o insuportável.


Estava sentada em uma cadeira de madeira com as mãos amarradas para trás. Os pulsos estavam envoltos por várias voltas de uma linha fina, branca, igual às utilizadas pelas crianças ao empinarem suas pipas, mergulhada por inteiro em cerol - uma mistura de cola com vidro moído que torna a linha extremamente afiada - o que impedia que a mulher forçasse os braços na tentativa de estourar a linha, mas não evitava os pequenos cortes banhados de sangue em seus pulsos.


Alguns minutos se passaram sem que fosse novamente atormentada. O homem de voz grave e imperial e uma força descomunal - ao menos para ela - havia se retirado do quarto em que ela estava amarrada, há alguns minutos e o silêncio do cômodo era quebrado apenas pelo arquejar inadvertido causado pela dor dos ferimentos. Talvez ele tivesse ido embora. Talvez aquilo tudo fosse somente um susto, nada mais. Ainda não entendia o que aquela pessoa queria, sabia apenas que tinha sido obrigada a dar aquele telefonema.


Suas esperanças de que seu torturador tivesse deixado o apartamento esvaiu-se com o ranger produzido pela porta do quarto ao ser aberta. Na cara do malfeitor um sorriso estranho, diferente...e um tanto sádico.


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Depois de fazer algumas conversões proibidas no intuito de fugir do trânsito e ultrapassar alguns cruzamentos protegidos por faróis vermelhos alimentado pela pressa, Hélio decidira parar o carro em um canto qualquer e seguir a pé. Seu destino não era longe, mas alcançá-lo a tempo de evitar o pior tornava a jornada árdua e extenuante. A gravata já com o nó da gola amolecido bailava contra o corpo do procurador seguindo o ritmo imposto pelo vento e pela pressa do homem que já suava compulsivamente pela testa. O tempo agora era seu inimigo, e a pressa, neste exato momento, era a melhor amiga da perfeição.


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A mulher despertou ofegante com o banho de água que acabara de sofrer. Havia desmaiado durante a última sessão de pequenas torturas - ainda não sabia qual era pior, se a tortura física ou a psicológica - o que fizera com que aquele miserável enchesse um balde com água gelada e encharcasse seu corpo com o líquido frígido. O frio que sentia era tamanho que a trêmula mulher, que tinha agora a pele toda enrugada, nem sentia o queimar intenso causado pelos ferimentos assim que estes eram tocados pela água esparramada.


- O QUE VC Q..QU..QUER CO..CO..COMI...MI..GO? - perguntou a mulher batendo os dentes uns contra os outros como uma caveira falante.


- Com você? nada! - respondeu o homem com escárnio - apenas me divertir um pouquinho, enquanto tenho que esperar... - finalizou misteriosamente.


- Es...pe..pe..rar o que..que? P..P..POR FA...FAVOR, AO ME..ME..NOS ME DIGA O QUE ES..TA..TÁ ACONTECE...CENDO! Eu p...preciso sa... - antes mesmo que pudesse terminar o raciocínio a mulher novamente apagou, o que comprovava que para ela, a pior tortura estava sendo mesmo a psicológica, já que, dessa vez, o homem nem a havia tocado ainda.


Ele, então, abriu um novo sorriso, diferente do primeiro, um pouco mais revelador. Aquela era a cara produzida por alguém que acabara de ter, o que julgara ser, uma boa idéia. Sim. Ele tinha tido uma ótima idéia. Para ele, pelo menos. Olhando o corpo desfalecido e desprotegido daquela singela dona-de-casa, pensou em como lhe causara sofrimento desde que chegara àquele local, então nada mais justo que, agora, a fizesse extasiar de prazer.


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Hélio corria, corria, corria. Cada vez mais depressa. "Estou chegando, meu amor" pensava ele. Logo, logo estaria lá. Como podia ter deixado esta situação se desenrolar. Ela não o perdoaria nunca. Mas já estava perto. Muito perto. Só esperava que não fosse tarde demais.


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A mulher que anteriormente havia voltado a si com um banho de água fria, dessa vez recobrava os sentidos com outro banho, só que este diferente e mais repulsivo, recheado de saliva. Sua boca era invadida pela língua grossa e áspera do rapaz, e seu hálito era tão atordoante que, não fosse o nojo que sentia, teria desmaiado novamente. Sentiu um embrulho no estômago e torceu para que vomitasse na boca daquele infeliz, mas o enjôo passou depressa. Só aí percebeu que sua mão direita agora estava presa em outro lugar: dentro das calças dele. Enquanto estava "fora-de-área" o miserável desamarrou sua mão direita - a esquerda permanecia amarrada pela linha com cerol ao pé da cadeira - e a colocou em seu pênis já inflado pela ereção. Tentou tirar a mão, mas foi atingida por um soco forte o suficiente para abrir contagem a qualquer pugilista profissional. Ficou meio inebriada com a agressão facilitando uma nova introdução daquela língua asquerosa em sua boca.


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"arf...arf...es...tou...che...gando...arf...arf...meu...am...or...arf...arf!"


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O homem genuflexo gritava de dor enquanto levava as mãos à boca. o sangue vazava por entre os dedos revelando a gravidade do ferimento. A mulher o encarava com os olhos arregalados, invadida por uma insanidade animal e irracional. Na boca, a língua do agressor arrancada a dentadas. Dessa vez, o sangue que inundava seu rosto não era seu, e sim daquele desgraçado que, agora, chorava feito uma criança perdida da mãe. Levantou-se da cadeira, ainda com a mão esquerda presa o pé, acertando um joelhada no rosto do homem que caiu de costas acusando o golpe. Arrastou a cadeira por alguns metros em direção ao criado-mudo repousado ao lado da cama. O pulso esquerdo foi rasgado ainda mais pela linha cortante, mas el tinha chegado a um ponto em que a dor não era mais empecilho para nada. A tesoura que se encontrava dentro da gaveta aberta cortou a linha com uma facilidade invejável, mas ainda teria um outro trabalhinho.


A mulher caminhou tranquilamente em direção ao ex-torturador, agora não mais que um bebê chorão, e ao vê-lo soluçar em desespero, pensou em como ela resistira ao sofrimento de uma forma mais honrosa. Teve vergonha por ele. Na sua opinião, o pré-requisito básico para alguém se tornar um torturador deveria ser sua resistência pessoal à dor. Pelo visto, não era. Chegou ao lado do homem ajoelhando-se com o corpo dele entre suas côxas. Não hesitou, apenas levantou sua mão direita - a mesma que ele escolhera para satisfazer seus desejos sórdidos - e enterrou a tesoura em seu pescoço.


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Hélio passou como uma locomotiva pela portaria da entrada seguindo imediatamente em direção à escada. Ela era acarpetada e circular o que tornava a subida mais cansativa e mais demorada do que gostaria. Ao terminar de subir todos os lances, apoiou-se na parede buscando forças para engolir o coração que já quase lhe fugia pela boca. Com as mãos agora em cima dos joelhos, olhou para frente e observou duas crianças em pé, apoiadas em uma pequena mureta de madeira. O barulho de sua chegada fez com que o menino olhasse para trás, vendo o pai ofegante comas mãos nos joelhos, e a camisa ensopada pelo suor. O cabelo também estava esvoaçado o que lhe causava estranheza já que seu pai sempre usara gel.


- Papai, corre! Corre que está acabando! - gritou o garoto alertando Hélio.


Hélio caminhou vagarosamente até a mureta que abrigava o mezanino, e só então percebeu o teatro lá embaixo completamente lotado. No palco, a esposa, abraçada a um homem com uma tesoura de plástico pendurada ao pescoço, agradecia o público que os ovacionava em pé. A luz do teatro acendeu-se com a entrada do resto do elenco, que ,agora junto aos dois protagonistas, também faziam reverências à platéia enlouquecida. Foi quando Hélio observou a esposa lá de baixo encarando fixamente o mezanino do teatro. O homem acenou para esposa - que retribuiu animadamente o gesto - dando graças a DEUS por ter chegado a tempo. Ainda demoraria para ela deixar o camarim, o que dava tempo de pedir aos filhos, além de segredo pelo atraso, um resumo detalhado sobre a peça que acabara de ocorrer. Então, franziu a testa ao lembrar que teria de lhe contar sobre as ameaças que vinha sofrendo. Mas não hoje. Não hoje.